
Por muito tempo, a doença de Alzheimer foi tratado como uma questão quase exclusivamente genética ou “de sorte” — algo contra o qual pouco se poderia fazer. Uma das mais amplas revisões científicas já realizadas sobre o tema derruba essa ideia: uma parcela substancial dos casos de demência no mundo está associada a fatores que podem ser modificados ao longo da vida.
O maior estudo já feito sobre prevenção de demência
Em 2024, a Comissão Permanente da revista The Lancet sobre Prevenção, Intervenção e Cuidado da Demência — uma das publicações médicas mais respeitadas do mundo — atualizou seu relatório de referência, reunindo evidências de dezenas de estudos internacionais. A conclusão: cerca de 45% dos casos de demência no mundo estão associados a 14 fatores de risco modificáveis distribuídos ao longo da vida, dois deles (perda de visão não tratada e colesterol LDL elevado na meia-idade) incluídos pela primeira vez nesta atualização — leia o relatório completo na The Lancet.
Os 14 fatores, divididos por fase da vida
A revisão organiza os fatores de risco por momento da vida em que atuam com mais força:
• Início da vida: baixa escolaridade.
• Meia-idade (18 a 65 anos): perda auditiva não tratada, hipertensão, obesidade, traumatismo craniano, consumo excessivo de álcool e colesterol LDL elevado.
• Vida tardia: tabagismo, depressão, isolamento social, sedentarismo, diabetes, poluição do ar e perda de visão não corrigida.
Segundo a Comissão, agir sobre esses fatores — sobretudo na meia-idade — tem potencial de retardar ou até evitar uma parcela relevante dos casos, mesmo em pessoas com maior risco genético.
O retrato brasileiro
Um estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da USP, com dados do estudo ELSI-Brasil (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros), aplicou essa mesma lógica à realidade nacional e chegou a uma estimativa de que cerca de 48% das demências no Brasil podem ser explicadas por 12 fatores de risco modificáveis. No cenário brasileiro, a professora Mônica Yassuda, da USP, destaca que a baixa escolaridade foi o fator mais importante, seguido por hipertensão e perda auditiva — um padrão que reforça a importância de políticas de saúde pública voltadas à educação e ao rastreio auditivo, além do cuidado individual — veja a entrevista completa no Jornal da USP.
Por que a perda auditiva chama tanta atenção
Entre os fatores modificáveis, a perda auditiva não tratada tem se destacado nas pesquisas recentes como um dos que mais contribuem isoladamente para o risco de demência. As hipóteses incluem a sobrecarga cognitiva causada pelo esforço extra para compreender sons, a redução do estímulo sensorial ao cérebro e o papel da perda auditiva no isolamento social — que é, ele próprio, outro fator de risco da lista. Isso torna o simples ato de tratar uma perda auditiva (com aparelhos auditivos, por exemplo) uma medida de prevenção de demência com respaldo científico crescente.
A Organização Mundial da Saúde estima que hoje existam cerca de 55 milhões de pessoas vivendo com demência no mundo, número que deve triplicar até 2050 à medida que a população envelhece — o que reforça a urgência de políticas e hábitos de prevenção que comecem décadas antes de um eventual diagnóstico, e não apenas depois que os primeiros sintomas aparecem.
O que isso muda na prática
Nenhum desses fatores, isoladamente, determina que uma pessoa vá ou não desenvolver a doença de Alzheimer — a genética e o envelhecimento continuam sendo componentes importantes e não modificáveis. Mas a mensagem central da ciência atual é otimista: diferente do que se pensava há poucas décadas, existe um espaço real de ação, especialmente quando as intervenções começam cedo e são mantidas ao longo do tempo.
Como a Clínica Reabilitar pode ajudar
O acompanhamento combina avaliação neuropsicológica, estimulação cognitiva e, quando indicado, técnicas de neuromodulação não invasiva, sempre associadas ao controle dos fatores de risco cardiovasculares e sensoriais já identificados pela ciência. Veja abaixo depoimentos de pacientes e familiares acompanhados na clínica:
Assista aos depoimentos completos de pacientes com doença de Alzheimer →
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